A maioria dos investimentos são iniciados com base em previsões e estimativas. Plantam-se cereais com previsão nos consumos das pessoas. Fabricam-se tupperwares com previsão das compras que os consumidores farão. Produzem-se mais tshirts brancas do que roxas porque se analisam tendências de moda e gostos de consumo. Se tudo o que se produz se faz com base em estimativas, com que base se decide em Portugal o número de vagas do curso A e do curso B para o Ensino Superior? Com base nos interesses de cada instituição e com base nas propostas que estas mesmas fazem ao Ministério do Ensino Superior? Haverá alguma análise que antecede a autorização de leccionar os mesmos, sim é verdade, mas será que essa autorização é com base nas necessidades formativas a médio prazo? Não me parece.
Porque são abertas 500 vagas em direito e não 300? Porque em Engenharia são abertas 300 e não 500? Porque analisamos meramente o desejo dos clientes. Esta perspectiva até estaria acertada, não fosse o Estado o financiador do sistema. Defendo a total liberdade de escolha, no momento de escolha do curso, e por essa razão não defendo a tese de fechar de forma cega cursos sem empregabilidade. Mas defendo o racionamento das vagas desses mesmos cursos.
Como é possível continuarmos a ter falta de médicos e de engenheiros e excesso de licenciados em áreas de Educação, porque o meio profissional não os consegue admitir? Os contributos das Ordens para este processo baseiam-se efectivamente nas necessidades do mercado ou em qualquer interesse que não compreendo?
Este é um problema não de agora, mas desde que me recordo do sistema existir.
Se continuarmos a abrir vagas com base nas análises dos desejos dos consumidores (futuros alunos) continuaremos apenas a alimentar a bola de neve que cada vez é maior. Continuar a permitir que centenas de alunos se inscrevam em cursos com baixa empregabilidade, é apenas engordar a máquina do Estado, no sentido em que serão futuros desempregados que necessitarão da ajuda do Estado. Ou seja, o Estado é o principal alimentador desta bola de neve.
Como já referi, defendo a abertura de cursos que ainda assim, tenham baixa taxa de empregabilidade, mas em vez de 300 vagas, passam a entrar apenas 100, entram os melhores desses 300, que é o que acontece por exemplo em Medicina. (Não vou aqui discutir a questão do que é ser melhor e das capacidades de relação inter-pessoais imprescindíveis em determinadas profissões). Mas o mais importante não me parece ser a questão de números, mas outra, a de sabermos quantos e quais precisamos.
E agora a questão? Como se resolve este problema? Um país que aposta na formação, tem que impreterivelmente saber do que precisa, num prazo sempre superior a 5 anos (duração mínima da formação). E quem lhe pode responder a isso? As entidades empregadoras. Uma empresa quando faz um investimento elevado ou um plano de negócios, tem um plano de crescimento, sabe onde e como quer estar no médio prazo. Se consegue efectuar previsões de crescimento e definir as áreas estratégicas de actuação, então certamente que também saberá de que profissionais precisará e de que qualificações lhes terão que estar associadas. Que tipo de profissionais contratará nas suas expectativas?
Por isso, porque não fazer um Census Empresarial/Formativo? Perguntar a todas as entidades empregadoras (não só empresas) previsões de contratação. Não há compromisso nos dados que apresentam, pedindo-se apenas uma previsão o mais realista possível.
Haverá erros e alterações? Claro, como em todas as estimativas que se fazem, disso tratam as margens de erro. Mas julgo que pelo menos seria um contributo que permitiria cruzar necessidades e oferta. Sempre que ouço países como o Brasil ou a Suécia a dizerem que necessitam de 20 ou 40 mil engenheiros, não acho obviamente que um pseudo-cérebro analisou por alto essas necessidades. Se assim o for, então também os critico a eles.
Para além do contributo para o Estado, uma análise destes dados, permitiria dar aos jovens do 9º (em fase de escolha de área) e do 12º ano (prestes a entrar no Ensino Superior), uma noção de como estará o mercado quando finalizarem o curso.
É verdade que perante o momento económico em que vivemos, parece que todas as áreas se tornaram difíceis, que não existem áreas melhores que outras, e que nem os Engenheiros se safam. Mas independentemente do momento que vivemos, não podemos continuar a agravar o problema.
Mais do que discutir modelos, se devemos reduzir vagas no curso A ou aumentar no curso B, considero urgente que saibamos de quantos precisamos e de quais precisamos. Essa sim é a verdadeira e importante discussão!
Concordo plenamente Maria Inês!!
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