sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

DESEMPREGO E A PROPRIEDADE DE HABITAÇÃO

Culturalmente, Portugal é um país em que a sua população associa estabilidade ao facto de possuir casa própria. As sucessivas gerações de jovens são continuamente “pressionadas” e “educadas” a comprarem uma casa como se se tratasse de um investimento profundo e que garante estabilidade. Nunca me revi nesta linha de pensamento, contrariando as “dicas” familiares. Compreendo e acho natural que um jovem queira a sua casa (que não é sua, mas sim do banco durante 80% da sua vida…), mas simplesmente não me revejo.


No que diz respeito ao arrendamento, recentemente o presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI) afirmou que «Portugal é o país da Europa com menos arrendamento, a seguir à Espanha».

A Espanha, para além de neste momento estar em primeiro lugar no índice de menores taxas de arrendamento está também a liderar o índice da taxa de desemprego

E é aqui que julgo que vale a pena reflectir e pensar. A relação taxa de desemprego e a propriedade de habitação.

Mercado de Arrendamento
“Em Portugal apenas 13% do mercado imobiliário se refere a aluguer de habitação, quando em França, Alemanha, Holanda, Áustria e Suécia o arrendamento já ultrapassa os 40% do mercado imobiliário.
Taxa de Desemprego
“As mais baixas taxas de desemprego verificam-se na Holanda, com 4,4 por cento, no Luxemburgo, com 4,8 por cento, e na Áustria que atinge os 5,1 por cento.”

Estes dados evidenciam a relação que referi, ou seja países com elevadas taxas de arrendamento têm um índice associado de baixas taxas de desemprego.
Esta relação justifica-se, a meu ver, por uma leitura um pouco mais profunda do que a razão do acesso ao crédito e das suas implicações, que muitas vezes conduzem a incumprimentos, por razões de desemprego dos clientes.
Se é verdade que este artigo de opinião poderá originar críticas e pontos de vista diferentes, também é verdade que estamos a falar de números reais, que resultam de observações cuidadas de factos e que por isso, os números são irrefutáveis, não os pontos de vista
Steven Landsburg, refere num dos seus últimos livros “Mais Sexo é mais seguro” (livro sobre economia de um ponto de vista irreverente), que, em média um aumento de 10% na taxa de propriedade está associada a 2% de aumento na taxa de desemprego. Landsburg refere-se ainda no seu texto, a Andrew Oswald, um professor da Universidade de Warwick, que estudou de forma aprofundada esta relação e que diz que a propriedade de habitação dá origem ao desemprego, pelo facto de comprometer as pessoas do ponto de vista geográfico.
Portugal é dos países da União Europeia com menor taxa de arrendamento, o que os promotores imobiliários atribuem à Justiça, referindo a morosidade na resolução de eventuais conflitos, mas também à falta de incentivos ao arrendamento. “
Se esta é efectivamente uma das barreiras ao aumento do mercado de arrendamento, recentemente tivemos uma excelente noticia do Governo, em que este anunciou “promover o investimento na reabilitação urbana e a dinamização do mercado de arrendamento, como meio de incentivar as actividades económicas associadas a este sector. Destaca-se a simplificação dos procedimentos e formalidades em caso de incumprimento do contrato de arrendamento, por forma a que o senhorio possa obter rapidamente a entrega do seu imóvel, livre e desimpedido, quando o inquilino não satisfaça os termos do contrato. Visa-se, assim, tornar o arrendamento num investimento seguro e atractivo, garantindo os direitos dos senhorios, sem prejuízo da manutenção de garantias adequadas aos arrendatários.”


Efectivamente este era um problema por resolver e que bloqueava o incentivo a este mercado. Ora vejamos por exemplo o caso de Nova Iorque. Nesta cidade alugar um apartamento é algo que apenas está acessível a alguns, devido aos valores escandalosamente aplicados. Por NY ter leis para o mercado de arrendamento que tornam o despejo de inquilinos, com sucessivos incumprimentos, praticamente impossíveis de serem resolvidos pela justiça, criou-se um problema maior. Os senhorios tornaram-se elevadamente selectivos no aluguer das suas casas, não facilitando e cobrando assim valores que não incentivam em nada o mercado de arrendamento.

Já em jeito de conclusão, importa referir que não acho que ser proprietário de uma casa seja mau, aliás quando estamos a falar de famílias constituídas e com crianças, está provado que mudanças sucessivas de habitação têm implicações negativas no sucesso escolar dos mais novos. O que acho é que o lema de uma casa para a vida não é necessariamente sinónimo de estabilidade. O que julgo que é importante, é que alugar casa hoje em dia pode dar até mais estabilidade, sobretudo nas novas gerações, no sentido de ser um compromisso de curto prazo, que permite que, perante novos desafios geográficos não se fique “agarrado” a compromissos que no passado faziam sentido, mas que deixaram de fazer.
As novas gerações têm a capacidade de sair de “zonas de conforto” e primam a possibilidade de constante adaptação e mobilidade, para que as suas escolhas sejam unicamente influenciadas pelos seus desejos e anseios.