A energia nuclear não constitui nenhum milagre para a resolução da dependência energética e do problema ambiental.
Os defensores da energia nuclear invocam muitas vezes questões ambientais, nomeadamente as vantagens no facto de a energia nuclear não contribuir para o efeito de estufa e invocam que o impacto na biosfera é muito diminuto. Sejamos sérios, ao falar de energia nuclear teremos de falar de todo o processo necessário para esta operação, o que nos vai permitir desmentir estas afirmações e perceber que a produção de gases de estufa é entre 3 a 6 vezes superior se comparada com a energia eólica ou hídrica, nomeadamente nas centrais nucleares.
Também a questão do armazenamento dos resíduos ainda não tem uma solução de localização e segurança e convém lembrar que esses mesmos resíduos emitem radioactividade durante muitos e maus longos anos.
Mas se os defensores da energia nuclear querem um debate sério sobre o assunto, terão de procurar novos argumentos que não os pseudo-ambientalistas, sobretudo num país em que o investimento nas energias renováveis está à vista e permitiu que Portugal no mês de Maio tenha atingido um saldo positivo na balança energética. Ou seja, exportou mais energia do que a que importou!
É necessário estar atento, há dezenas de países interessados em aderir ao “clube nuclear” e o número de novos reactores em projecto tem três dígitos.
É ínfima a quantidade da dependência dos reactores para necessidade energética em países como o Brasil, China e índia, no entanto se as instalações que se projectam forem concretizadas esta dependência certamente aumentará. A dependência de países como a França e a Ucrânia já é inversa o que torna alarmantes os dados (77 e 48% respectivamente). Para que tenhamos noção do que se avizinha a Rússia tem 37 reactores nucleares em construção e a Tailândia cerca de 100.
Multipliquemos o número de reactores projectados ou em construção pelo custo estimado para cada reactor, entre 4 a 7 mil milhões de euros. Some-se a isso o tempo de execução do projecto 9 a 12 anos.
Outra bandeira dos defensores da energia nuclear é de que ela suprime as crescentes necessidades energéticas do mundo e que como já referi, que promove a mudança climática. Num mundo irrealista talvez…mas todos seriamos poucos para construir a quantidade necessária de reactores que tornaria isso possível.
As estimativas dizem que a procura de electricidade duplicará até 2030. Actualmente a quota de energia nuclear é de 15% da energia global produzida. Para manter essa mesma quota em 2030, será necessário construir um reactor de 100MWatt a cada 16 dias durante os próximos 20 anos!
Mas há mais, a estimativa relativa às emissões de gases com efeito de estufa é de que estes dupliquem até 2050, passando dos actuais 7mil milhões toneladas/ano para 14 mil milhões toneladas/ano de CO2.
Pois bem, para quem afirma que a teoria de que a energia nuclear é benfeitora nesta matérias, que se saiba que para que esta energia compense uma pequena fracção APENAS dos 7 mil milhões adicionais, seria necessário que entrasse em funcionamento um reactor de 1000MWatts a cada 14 dias, a partir de hoje até 2050.
Poderia também aqui falar de acidentes sobejamente conhecidos por todos, como é o caso de Chernobyl, mas até pequenos casos servem de relato, como é o caso do acidente radiológico de Goiânia, no Brasil em 1987, onde foi furtada uma pedra de sal de cloreto de Césio-137, um isótopo radioactivo, de um hospital abandonado, que nos elucida sobre a (in)segurança associada à energia nuclear.
Enquanto estes problemas não apresentarem soluções sim, serei contra a energia nuclear. Mas importa discuti-la, para efectivamente todos podermos ficar elucidados em conjunto.