Isabel Stilwell escreveu recentemente num jornal diário gratuito, um editorial intitulado "Contra factos há o optimismo". A escritora aborda um inquérito recentemente divulgado pela Comissão Europeia, relativo ao clima social na UE. Desse inquérito resultam dados que afirmam que a maioria dos portugueses considera que a sua vida, em termos gerais, piorou nos últimos cinco anos.
Stilweel escreve "Simplesmente, suspeito que se há cinco anos nos tivessem feito a mesma pergunta, daríamos exactamente a mesma resposta, e assim sucessivamente até ao nostálgico tempo dos Descobrimentos, que convencionamos ter sido o El Dourado nacional. Suspeito, sim senhora que adoramos a postura de coitadinhos, de vítimas de governantes convencidos, de que "alguém", que não nós mesmos, vai resolver os nossos problemas".
Pois bem, identifico-me com as palavras de Stilwell. A minha geração cresceu, em parte, a ouvir o constante, "dantes é que era bom", "dantes é que éramos bem tratados", "dantes éramos ouvidos", "dantes...
Dantes, pois bem, o meu pai sempre me disse que as pessoas têm memória curta, facto este que é geral, e que não o considero como um defeito ou problema mas é quase como uma condição inata do ser humano. A ingratidão por sinal, é que já é certamente um defeito. Num momento, em que tanto se fala de liberdade, repugna-me ver manifestações com cartazes cujas inscrições dizem "Volta Salazar, estás perdoado!" Terão os autores destas frases nascido noutro planeta? Mais grave, os autores destas frases, viveram o antes - 25 de Abril, na sua maioria. Será a memória assim tão curta que lhes tenha apagado momentos de sofrimento de todo um povo oprimido e sujeito à ditadura daqueles que sendo poucos decidiam o que era melhor para todos?
Aprecio especialmente a época do 25 de Abril, apesar de não a ter vivido. Felizmente cresci em liberdade mas a coragem daqueles homens foi-me transmitida como um exemplo. Às vezes pergunto-me se como povo, nos esquecemos da pobreza envergonhada e silenciosa em que os portugueses viviam, num silêncio de pensadores consigo próprios?
O meu pai, que muito me ensina, por vezes diz em jeito de brincadeira "Há gente que devia pagar multa por falar". Pois bem, quem exibe cartazes destes pelas ruas, pondo certamente as crianças a pensar que Salazar era um super-herói do tempo dos avós, se não devia pagar multa, deveria pelo menos ter sido brindada com um pouco mais de inteligência, um pouco mais de respeito e um monte de valores que serão tantos em falta que ficaria aqui o resto do dia a enumerá-los.
Cansa-me que tantas pessoas se agarrem a um passado que não foi melhor. A um passado que uns poderão dizer que eram mais felizes (porque o conceito de felicidade é individual e pessoal), mas que certamente não era melhor.
As memórias das vivências falarão por si, ou em alguns casos se apagarão por si...