DESEMPREGO E A PROPRIEDADE DE HABITAÇÃO
Culturalmente, Portugal é um país em que a sua população associa estabilidade ao facto de possuir casa própria. As sucessivas gerações de jovens são continuamente “pressionadas” e “educadas” a comprarem uma casa como se se tratasse de um investimento profundo e que garante estabilidade. Nunca me revi nesta linha de pensamento, contrariando as “dicas” familiares. Compreendo e acho natural que um jovem queira a sua casa (que não é sua, mas sim do banco durante 80% da sua vida…), mas simplesmente não me revejo.
No que diz respeito ao arrendamento, recentemente o presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI) afirmou que «Portugal é o país da Europa com menos arrendamento, a seguir à Espanha».
A Espanha, para além de neste momento estar em primeiro lugar no índice de menores taxas de arrendamento está também a liderar o índice da taxa de desemprego
E é aqui que julgo que vale a pena reflectir e pensar. A relação taxa de desemprego e a propriedade de habitação.
Mercado de Arrendamento
“Em Portugal apenas 13% do mercado imobiliário se refere a aluguer de habitação, quando em França, Alemanha, Holanda, Áustria e Suécia o arrendamento já ultrapassa os 40% do mercado imobiliário.
Taxa de Desemprego
“As mais baixas taxas de desemprego verificam-se na Holanda, com 4,4 por cento, no Luxemburgo, com 4,8 por cento, e na Áustria que atinge os 5,1 por cento.”
Estes dados evidenciam a relação que referi, ou seja países com elevadas taxas de arrendamento têm um índice associado de baixas taxas de desemprego.
Esta relação justifica-se, a meu ver, por uma leitura um pouco mais profunda do que a razão do acesso ao crédito e das suas implicações, que muitas vezes conduzem a incumprimentos, por razões de desemprego dos clientes.
Se é verdade que este artigo de opinião poderá originar críticas e pontos de vista diferentes, também é verdade que estamos a falar de números reais, que resultam de observações cuidadas de factos e que por isso, os números são irrefutáveis, não os pontos de vista
Steven Landsburg, refere num dos seus últimos livros “Mais Sexo é mais seguro” (livro sobre economia de um ponto de vista irreverente), que, em média um aumento de 10% na taxa de propriedade está associada a 2% de aumento na taxa de desemprego. Landsburg refere-se ainda no seu texto, a Andrew Oswald, um professor da Universidade de Warwick, que estudou de forma aprofundada esta relação e que diz que a propriedade de habitação dá origem ao desemprego, pelo facto de comprometer as pessoas do ponto de vista geográfico.
Portugal é dos países da União Europeia com menor taxa de arrendamento, o que os promotores imobiliários atribuem à Justiça, referindo a morosidade na resolução de eventuais conflitos, mas também à falta de incentivos ao arrendamento. “
Se esta é efectivamente uma das barreiras ao aumento do mercado de arrendamento, recentemente tivemos uma excelente noticia do Governo, em que este anunciou “promover o investimento na reabilitação urbana e a dinamização do mercado de arrendamento, como meio de incentivar as actividades económicas associadas a este sector. Destaca-se a simplificação dos procedimentos e formalidades em caso de incumprimento do contrato de arrendamento, por forma a que o senhorio possa obter rapidamente a entrega do seu imóvel, livre e desimpedido, quando o inquilino não satisfaça os termos do contrato. Visa-se, assim, tornar o arrendamento num investimento seguro e atractivo, garantindo os direitos dos senhorios, sem prejuízo da manutenção de garantias adequadas aos arrendatários.”
Efectivamente este era um problema por resolver e que bloqueava o incentivo a este mercado. Ora vejamos por exemplo o caso de Nova Iorque. Nesta cidade alugar um apartamento é algo que apenas está acessível a alguns, devido aos valores escandalosamente aplicados. Por NY ter leis para o mercado de arrendamento que tornam o despejo de inquilinos, com sucessivos incumprimentos, praticamente impossíveis de serem resolvidos pela justiça, criou-se um problema maior. Os senhorios tornaram-se elevadamente selectivos no aluguer das suas casas, não facilitando e cobrando assim valores que não incentivam em nada o mercado de arrendamento.
Já em jeito de conclusão, importa referir que não acho que ser proprietário de uma casa seja mau, aliás quando estamos a falar de famílias constituídas e com crianças, está provado que mudanças sucessivas de habitação têm implicações negativas no sucesso escolar dos mais novos. O que acho é que o lema de uma casa para a vida não é necessariamente sinónimo de estabilidade. O que julgo que é importante, é que alugar casa hoje em dia pode dar até mais estabilidade, sobretudo nas novas gerações, no sentido de ser um compromisso de curto prazo, que permite que, perante novos desafios geográficos não se fique “agarrado” a compromissos que no passado faziam sentido, mas que deixaram de fazer.
As novas gerações têm a capacidade de sair de “zonas de conforto” e primam a possibilidade de constante adaptação e mobilidade, para que as suas escolhas sejam unicamente influenciadas pelos seus desejos e anseios.
Mercado de Arrendamento
ResponderEliminar“Em Portugal apenas 13% do mercado imobiliário se refere a aluguer de habitação, quando em França, Alemanha, Holanda, Áustria e Suécia o arrendamento já ultrapassa os 40% do mercado imobiliário.
Taxa de Desemprego
“As mais baixas taxas de desemprego verificam-se na Holanda, com 4,4 por cento, no Luxemburgo, com 4,8 por cento, e na Áustria que atinge os 5,1 por cento.”
Estes dados evidenciam a relação que referi, ou seja países com baixa taxa de arrendamento têm um índice associado de baixas taxas de arrendamento."
Inês quando escreveste isto devias querer dizer que países com altas taxas de arrendamento têm um indice associado de baixas taxas de desemprego". não?
beijo,
Pedro
Exacto Pedro, aliás o resto do texto reforça isso. Lapso imediatamente a ser resolvido:)
ResponderEliminarBjs e obrigada
Só agora descobri que também tens presença na blogsfera :)
ResponderEliminarDesde já os meus parabéns, como é teu apanágio, sempre acutilante e assertiva.
Como sabes, revejo-me e inteiramente na tua visão do assunto e não faz qualquer sentido que por "obrigação social" de ter de ter casa própria( "que não é sua, mas sim do banco durante 80% da sua vida…"), tenhamos chegado ao ponto de sobre-endividamento que temos hoje no nosso país.
Sociologicamente, o ser humano sempre se caracterizou por ser extremamente territorial. Já os nossos antepassados da idade da Pedra ou do Bronze deixaram inúmeros indícios arqueológicos de partirem para a guerra pelo domínio ou expansão do território, tal facto está tão marcado na nossa raiz cultural que este tipo de acontecimentos se arrasta, infelizmente, até aos nossos dias.
No mundo ocidentalizado, esse factor quase instintivo de posse foi-se tornando um pouco mais racional e, felizmente nos dias que correm, não entramos em guerras armadas este ou daquele bem (o que não inviabiliza as guerras judiciais e um ou outro homicídio!). Esta metamorfose/amenização de comportamentos não impediu que, tal como referiste, nos continue a ser transmitido pela sociedade esse sentimento de posse e da necessidade de ter algo "nosso" a que chamamos de "minha casa".
Nós fazemos parte de uma minoria dentro da nossa geração que fugiu a esse paradigma, que vê a vida com horizontes um pouco mais amplos e que por isso não se deixa "prender" a algo tão insignificante como quatro paredes onde dormir. Talvez por isso e apesar de ainda jovens, podermos somar já um tão rico curriculum de experiências, vivências e de certezas que muito temos e queremos aprender e viver.
Mas voltando ao tema, existiu porém um grande incentivo à compra de casa própria, um factor que empolou mais ainda essa ideia de que só conseguiremos ser felizes se formos "donos" do local onde dormimos. Vê isto, no tempo dos nossos avós, não era vulgar ter casa própria e quem a tinha das duas uma, ou a havia herdado ou era realmente alguém financeiramente muito favorecido. A grande mudança deve-se ao desenvolvimento do sistema bancário e, no caso especifico de Portugal, em grande parte pelo incentivo do crédito à habitação bonificado que, salvo erro, foi criado no inicio dos anos 90 e que durou até Outubro de 2002. Não será este um dos maiores incentivos à aquisição de casa própria de que há memória?
Nos valores que hoje defendo, não consigo compreender como é possível estar meio país a comparticipar prestações de um crédito à habitação a outra metade! Se não repara, o estado comparticipava o crédito à habitação. Como? recorrendo ao aumento da divida externa graças à facilidade de acesso ao credito por força de taxas de juro extremamente baixas e em função de uma política do betão! O mesmo se passou na Espanha e hoje os números falam por si, taxas de desemprego galopantes, défices recorde, não cumprimento do pacto de estabilidade da zona Euro, venda de títulos da dívida externa à China, medidas de austeridade, aumento da taxa de juro, descidas no rating das sociedades gestoras de risco e uma eminente necessidade de recurso ao FMI. Esta politica do betão levou a que hoje cada português, em média, deva 18.000€ ao exterior!!!
Somos uma geração privilegiada, temos mais possibilidades que nenhuma outra teve de sermos o que quisermos, de construir o nosso próprio caminho e de, todos juntos, criar e seguir um projecto comum para fazer com que as próximas gerações sejam ainda mais privilegiadas. Temos de olhar para o passado não para apontar o que de mal se fez mas, para saber o que repetir e o que evitar.
Por isso digo, arrendamento justo e regulamentado SIM!
Beijinho
Nelson Silva (Flubber)
Concordo inteiramente com aquilo que acabaste de dizer Inês e com tudo aquilo que aqui foi acrescentado. Daí que muito mais tenha a dizer.
ResponderEliminarParabéns por tudo aquilo que escreves, agora estarei a seguir-te mais atenta.
Beijoca*