segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O investimento na educação (es)colhe-se

Quando a direita afirma que só deve estar na escola quem quer, é o claro sinal de que dá como adquirido a mais pura falsa das afirmações: “De que todos partimos do mesmo ponto”. Ignorando diferenças sociais, ignorando desigualdades e ignorando barreiras que não são opções, é fácil dizer que o mundo é feito de escolhas. Pois bem, quando nascemos não escolhemos em que país queremos viver, em que família queremos nascer e o que queremos ter. Cabe aos Governos implementar medidas que reduzam estas desigualdades e há bens e serviços que não se dão a escolher. Só no momento em que haja a garantia de que todos têm igual acesso a esses bens essenciais, aí sim escolhemos, porque só aí será justo fazer comparações, fazer opções.
Escolher? Na altura de Salazar optava-se quem ia à escola e quem não ia...Pois bem, ainda hoje pagamos o custo das opções que milhares de crianças da altura não fizeram e que lhes foram impostas e que só agora, já adultos, podem escolher voltar a estudar.

Por vezes julgo que uma grande fracção da população portuguesa não tem consciência dos passos que se têm dado a nível de educação no nosso país.
Julgo também que não se tem noção da importância que esse investimento tem para Portugal e dos resultados económicos que isso gera, para nem falar no progresso que temos como povo.
Trabalhadores mais instruídos são trabalhadores muito mais produtivos. Dados dos EUA indicam que trabalhadores com formação superior são três vezes mais produtivos, e que um trabalhador com o ensino secundário é 1,8 vezes mais produtivo do que um trabalhador, com uma habilitação inferior ao 9º ano. Já em 1971, Edwin Mansfiled, descobriu através de um estudo que os presidentes de companhias que mais depressa adoptaram novas tecnologias complexas eram, em média mais novos e com maior nível de formação do que os chefes das empresas mais lentos a inovar.
Quando falamos em China, ainda há quem visualize como primeira imagem as chamadas lojas dos 300. Pois, mas a China distante é bem diferente e alguns passos a nível governativo estão a ser dados, como sinal de que algo está mudar.
A economia da China chegará em 2040 aos 86 000 000 000 000 € (86 biliões de euros!). Isto é equivalente a três vezes o produto económico de todo o mundo em 2000.
O rendimento per capita da China ultrapassará os 59 mil euros, mais do dobro do previsto para a EU. A China do ano 2000 classificada como pobre, passará a ser classificada como uma nação super rica em 2040.
Robert Fogel (Prémio Nobel da Economia em 2003) escreveu um excelente artigo em que analisa o porquê deste crescimento futuro. Um dos factores essenciais é o investimento que está a ser feito na educação.
Na China, as inscrições no ensino secundário e no ensino superior estão a crecer de forma regular devido a investimentos significativos. Em 1998, quando se iniciou o forte apelo às inscrições no ensino superior, apenas 3,4 milhões de chineses estavam matriculados no ensino superior chinês. No 4 anos que se seguiram a percentagem de estudantes no ensino superior aumentou 165% e o número de chineses a estudar no estrangeiro aumentou 152%.
Fogel acredita que durante a próxima geração a China conseguirá aumentar a taxa de inscrição no ensino secundário para perto dos 100% e no ensino superior para 50%.
Hoje ficámos a saber que neste momento a China tornou-se na 2ª maior economia do mundo, destronando o poderoso Japão. Julgo que em pouco mais de uma década atingirá o 1º lugar do pódio.
O facto de Portugal ter um nível médio de escolaridade aquém do desejável, quando em comparação com outros países da EU, tem um custo elevado no PIB. Se o capital humano for mais valorizado o PIB apresentaria crescimentos superiores. Robert Barro, da Universidade de Harvard e Jong-Wha Lee, do banco Asiático para o Desenvolvimento, estimam que um ano a mais de escolaridade média representa um ganho no PIB nacional entre 5% e 12%.
O investimento nos últimos anos na educação espelha a viragem que indicia um excelente ponto de partida. E as reformas não foram apenas nos níveis de ensino mais elevados, a mudança na base e no início da educação foi essencial. É certo que demoraremos uma a duas gerações para sentir alguns dos resultados práticos, mas dentro de 10 anos, os jovens que ingressarão no mercado de trabalho, terão um inglês ao nível dos melhores e uma capacidade de interacção com as tecnologias adaptada ao que será o mundo de então.
É certo que não podemos olhar para a educação de forma crua e com base apenas em números de anos de escolaridade, mas não hajam dúvidas que o investimento na educação altera um país.
Só quem não vive o verdadeiro país, não sabe o que mudou. Quantos jovens da minha idade, à noite em casa, não ajudam e ensinam os pais a manusear o computador? Quantas mães e pais, que na altura em que deviam ter andado na escola e não andaram porque o sistema não lhes deu oportunidades, não voltaram a estudar no Programa Novas Oportunidades e dizem em alta voz que nunca é tarde para aprender? Será que alguém pode medir os efeitos a nível de auto-estima e confiança que isto produz?
Quantos jovens que ingressam na experiência de estudar/trabalhar no estrangeiro, com uma adaptação rápida em que o inglês aprendido na escola se torna no maior veículo de adaptação?
Assistimos em plenas famílias a um dado adquirido "Ninguém é velho demais que não possa aprender e ninguém é novo demais que não possa ensinar".

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